Saturday, June 18, 2011

Cultura e educação

Há uns dois dias atrás assisti a uma entrevista com o Wisnick. Em algum momento foi perguntado a ele o que ele achava da hipótese de que o Brasil se tornaria uma das grandes potências do mundo durante este século. Economicamente e ....culturalmente...O quê? Que hipótese é esta? Uma das grandes potências culturais do mundo nos próximos cem anos? Como? Qual a possibilidade de que isto ocorra se cultura e educação devem e caminham lado a lado? O sábio Wisnick respondeu que ele acreditava que isso poderia ser possível SE o Brasil conseguisse que os brasileiros soubessem ler um parágrafo, pois que educação e cultura não podem evoluir separadamente. Tomo aqui a liberdade da escrita para resumir o que disse o nosso caríssimo professor.
Concordo com ele. Sou obrigada a concordar. A maioria do povo brasileiro continua recebendo uma educação de má qualidade e uma bagagem cultural ditada por potências do meio econômico. A bem da verdade, são muitos os projetos para o incentivo da cultura. Incontáveis. Mas raramente contemplam o que realmente é importante. Vezes sem conta o papel da propagação cultural que deveria ser feita pelos meios competentes é feita por sociedades não ligadas ao governo, excercendo elas mesmas o papel de mantenedoras do fenômeno cultural. Muitas vezes sem nenhum apoio das entidades governamentais.
Volto ao meu tópico postado anteriormente. Me lembro dos meus alunos na Faculdade de Música. Me lembro dos Concertos Didáticos realizados pela orquestra. Ainda hoje passo por alguns antigos alunos que saíram de uma realidade difícil, complicada, e aprenderam muito mais do que ler um parágrafo. Aprenderam a escrever suas próprias vidas usando a música como meio. Aprenderam a se dar valor, a ter auto-estima, a se olhar no espelho e dizer "eu valho a pena".
Recordo dos textos de psicologia que li, das pesquisas que fiz para aplicação da didática musical...pedagogia...metodologia do século XXI...
Besteira!
A psicologia é, a cada aula valorizar o seu aluno, mostrar a ele quantos parágrafos ele pode escrever! A didática musical é apresentar a ele o valor da música em sua vida, como meio de vida e como ferramenta para a construção de uma vida saudável e possível.
Paradoxo...
Se bem que não. Tenho colegas de trabalho contratados recentemente, após graduar-se como Bacharéis, que ganham bem mais que eu, considerando a carga de trabalho. Os que tiveram a sorte de fazer um curso de Mestrado estão ainda melhores. Fico feliz por eles por que vejo a coroação de todo um trabalho feito pela Faculdade.
Mas fico triste quanto a mim. Estudei com o meu próprio ônus, passei anos longe da minha família e amigos, enfrentei situações que nunca pensei. Voltei. Esperançosa de ver uma mudança, uma luz no fim do túnel, uma garantia não somente para mim mas para estes mesmos alunos para que não parem por aí. Uma garantia de que eu poderia permanecer no lugar que escolhi para viver e contribuir.
Nada. Minha formação de Mestre nada vale, ao contrário deles. Minha formação de Doutoranda também nada conta. Sou uma das cabeças pensantes mas me sinto sugada por um governo que somente tira e não dá. Cobra mas não oferece. Oprime e tiraniza por meios muitos sutis de terrorismo psicológico.
Sr. Governador, mudanças são positivas. Trazem benefícios a todos, se bem aplicadas. Melhorias estruturais são bem vindas mas não pagam as minhas contas. Projetos purulando aos milhares, porque são necessários grandes holofotes para que nos veja, também não faltam mas ainda assim mais trabalho não remunerado adequadamente não resolverá o problema das dívidas que tenho e da família que sustento.
O que me indigna é a comiseração generalizada que paira no ar e ainda assim nenhuma atitude é tomada, como se fôssemos literalmente desviados de nossos direitos em detrimento de mais deveres. Me sinto como um dos pagadores de impostos da Idade Média...como costumava ler nas estórias de Robin Hood....constantemente usurpada de seus direitos em benefício daqueles que se apropriaram deles. Me sinto roubada. É um fato comum, eu acredito. Nós brasileiros não gostamos da violência, não gostamos da miséria, dos maus tratos na saúde, não gostamos da educação que vemos aplicada nas escolas públicas. Mas de alguma forma nos acostumamos a ficar calados frente a tudo isto. Não nos manifestamos, não nos rebelamos, ficamos indignados, comentamos, mas isto é tudo que fazemos. Vez por outra algum segmento acaba em greve e em "negociação". Leiloam-se a perseverança, a força de espírito. Ainda negociamos, nós e o Sr. Governador, quem quer que ocupe o cargo, por 17 anos. Perdemos todos os direitos que tínhamos por causa desta tirania psicológica. Qual a validade de uma Faculdade de Música? Uma Orquestra?? Pra quê isso? Tínhamos ticket alimentação, vale-transporte, ajuda no plano de saúde, licença remunerada para estudar, consequentemente tínhamos um plano de carreira e de salários.....Tudo foi usurpado, sem mais nem menos. E ainda ouvíamos...."e vocês ainda ganham pra fazer música?" Será que isto é um resquício da ditadura? Algum sociólogo deveria responder a esta questão, se é que já não foi respondida. Que valor tem a educação para o Sr. Governador? Que valor tem a cultura para o Sr. Governador? Minha mãe costumava dizer sabiamente: "Filha, alguém só pode dar aquilo que tem. Alguns valores não podem ser ensinados. Estão impressos no caráter do ser." Quero crer que isso possa ser mudado....

4 comments:

  1. O Estado, de fato, representa a onipotência do bio-poder. Codifica, recodifica, por meio da atuação de seus agentes. E isso é natural não só no Brasil, como em qualquer outro país que esteja inserido na ótica capitalista.

    Agora, o que surpreende é a hipocrisia das pessoas...se o Estado é tirânico, ele assim é, porque permite representações que se fazem seus espelhos. Professores, coordenadores, diretores, assessores... profissionais com formação deficiente, que usam de "um falso poder", acreditando piamente estarem aptos à gerência de um mero conservatório, maquiado sob o nome de Faculdade de Música. Vejam Brasília, vejam o Paraná...a música vinculada à Universidade, a música provida de caráter acadêmico. Não apenas uma maquiagem. Enquanto a pseudo-faculdade for formada por "esposas de pastores", ou "doutorandos de igreja batista", fica difícil um reconhecimento, quando a matéria prima for escassa.

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  2. Sempre questionei a maioria dos meus amigos quando dizem "vc faz música? não é um curso importante para a sociedade!"
    É assim que nossos vizinhos pensam! Infelizmente, arte e cultura parecem estar no banheiro do governo!
    Me sinto subjugado quando admito ter um político que nada sabe de cultura na Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados (Tiririca).
    E o que nós artistas fazemos? Nos trancafiamos nas nossas salas de estudo e não criticamos. Eu sou assim as vezes, infelizmente!
    Sei que se quero ver uma mudança, preciso me mover!
    Agora discordo do comentário acima. Nossa competência não é atribuída a nossa crença, e acredito e tento enxergar sempre o profissional como algo distante do pessoal. E assim a competência profissional...é essa competência que deve ser avaliada!

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  3. Quando não se tem conhecimento real de causa ou se quer perturbar o ordem, é fácil usar expressões "engraçadinhas" para denegrir a luta insana de profissionais abnegados que só podem contar com seus próprios esforços para a concretização de seus ideais. Professor da Faculdade de Música do Espírito Santo há mais de vinte anos sei o que investi e o que dediquei da minha vida em prol da construção de um ensino musical consistente que ajudasse o Estado do Espírito Santo a fomenter o crescimento de seus seres humanos. A cultura é vital para se atingir a verdadeira qualidade de vida. E como professor da Fames, convivendo em seus meandros, sou testemunha ocular e auditiva de um considerável número de profissionais da música que dedicaram e dedicam suas vidas e seus anseios para oferecer ao Estado uma educação musical de excelência. Os resultados estão aí pra quem quiser ver... Buscando formação e aperfeiçoamento com seus próprios esforços e sendo praticamente ignorados pelo estado empregador. É no mínimo leviano o comentário feito por "anônimo". Alguns de nossos colegas que dedicaram grande parte de suas vidas a esse ensino "maquiado", morreram passando necessidades e absolutamente não tiveram seus esforços reconhecidos. Tantos que batalham incansavelmente nesse momento, com o descaso reinante, começam a pensar em desistir da luta ou buscar outros campos onde possam exercer suas funções e serem tratados com a dignidade que aqui parece cada vez mais distante. Se alguém tem dúvida da qualidade do ensino e dos resultados altamente satisfatórios conseguidos pela Fames, os dados estão todos lá para quem quiser ver. O empenho de tantas vidas é uma realidade concreta. O ensino musical na Fames há muito ja disse a que veio. Falta agora que os orgãos competentes deixem de fazer vistas grossas ao que acontece de fato e cumpra a sua função de reconhecer o abnegado trabalho de tantos profissionais e os trate com a dignidade a que teem direito por um trabalho concreto realizado.

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