Thursday, July 14, 2011

A origem

Se quem ler este texto tiver a oportunidade de ler o primeiro texto publicado, vai perceber que a intenção de criar este blog nada tinha de confrontamento ou tentativa de mobilização. Era somente uma experiência em expor alguns pensamentos. Nunca me veio a ideia de que este blog poderia se transformar em uma ferramenta.
Quando a minha raiva teve que ser expelida de algum modo, me voltei para esta ferramenta e literalmente descarrequei aqui a minha frustração. Esta atitute me fez repassar mais vividamente todos estes tormentos impostos por esta política anti-cultural que experimentamos. O fato de transcrevê-la me faz repensa-la mais e mais. Os comentários me fazem reforçar a teoria de que meu pensamento não está incorreto, ou ilógico. É lógico que se nada acontece pelas vias legais do governo, este é um sinal claro de que o governo não demostra interesse em desenvolver uma política cultural sólida ou sustentada que permita que o Estado do Espírito Santo desenvolva um tradição cultural dentro de suas capacidades. Estranho um projeto como o do Cais das Artes não contemplar uma sala de ensaio para a orquestra em sua primeira maquete. Depois de tantos anos lutando por uma sede, finalmente houve a luz providencial do governo...O Cais das Artes...Qual não foi a surpresa daqueles que foram à exposição da primeira maquete e não encontraram ali um espaço reservado para a orquestra? Corrijam-me se eu estiver errada.
Que tradição cultural é esta que pretendemos expandir?
Eu gostaria que alguém me apontasse um edital aprovado relativo à música erudita na SECULT. Até onde eu pude constatar, nenhum. Por favor me corrijam e me digam que estou errada. Desejo estar enganada. Desejo estar vendo o cenário com olhos pessimistas quando deveria enxergar outros critérios....Alguém me corrija...

Me indigna a não manifestação da indignação de muitos daqueles que me rodeiam. Somos todos conscientes do problema. Vejo meus colegas ao redor e todos eles tem o mesmo rosto de desilusão, desapontamento, frustração. Discutia com algumas pessoas a minha atual condição. Talvez eu leve tudo muito a sério e, como disse uma das minhas colegas de trabalho, não aprendi ainda a apertar o botão do "foda-se".

É interessante... uma vez me disseram que ter um problema é um bom sinal pois se existe um problema existe uma solução. Mas se não é um problema, é um fato consumado, impossível de ser desfeito ou refeito. É passado imutável. Isto eu sou capaz de aceitar. Sou capaz de aceitar aquilo que não posso mudar. Mas me corrói não conseguir resolver as coisas passíveis de solução que somente não chegam a uma conclusão por falta de mobilização, por falta de idealismo, disciplina e por falta de vontade política. Não me vejo diferente hoje de um peão que trabalha por sua ração diária e umas poucas moedas no fim da semana.

Quando foi que paramos de pensar? Quando foi que paramos de acreditar que nossas ações tem valor? Quando foi que nos deixamos desvalorizar a este ponto? Será que fomos todos tão traumatizados assim pelas ações criminosas que tomaram ex-governadores que hoje consideramos o fato de sermos pagos em dia uma dádiva maravilhosa do governo para com seus empregados? Até onde eu sei, diz a legislação que o empregador é obrigado a pagar o salário até o quinto dia útil do mês. Então o governo não faz um favor a nenhum de nós pagando em dia. Ele cumpre a lei. A "calçada cidadã" (que mais atrapalha o deficiente) não é um presente do governo. É o cumprimento da Lei!

Talvez não tenhamos mais esperança que um dia as coisas melhorem e todos nós tenhamos que abandonar os nossos empregos. Talvez isto ocorra. Mas até lá, este canal continuará aberto e em discussão. Siga o Blog. Colabore sendo um seguidor e postando seu comentário. Só assim conseguiremos mobilizar a opinião pública. Passem adiante a ideia e postem aqui as suas ideias. Somente juntos conseguiremos pressionar uma posição por parte do governo.

A saber, tenho acompanhado a audiência do blog e fico feliz em ver que ele tem sido acessado por pessoas nos Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha e Canadá. Acho que vou começar a transcrever os textos em inglês. Assim teremos mais alcance.

Que será que pensarão os senhores Secretários da Educação e da Cultura ao saber que sua reputação tem sido carreada tão longinguamente?

O Blog está aberto.

Tuesday, July 5, 2011

O que será do amanhã?


Tomou-me um certo assombro quando li o comentário do meu amigo Antônio Marcos Cardoso ao último texto postado no blog. Tive que me recompor. Me senti sem chão, jogada a uma realidade da qual não posso fugir. Bravo e indômito foi o Tonico. Desbravou fora da “ilha” e descobriu um mundo novo. Nós, aqui ancorados, vez por outra navegamos para fora, refazemos nossos ares e nossas energias e voltamos, esperando pelo menos manter a nossa sanidade. Infelizmente seu comentário me atingiu de uma forma que acredito nem mesmo ele esperava. Escrevi-lhe contando a minha reação e ele na sua generosidade usual me explicou mais detalhadamente seu ponto de vista. Basicamente ele resumiu seu comentário em uma frase: “o Espírito Santo não merece você!”
Entendi suas colocações e concordo com elas. O Espírito Santo não nos merece. A todos nós que não podendo sair, ficamos, brava gente brasileira. Quanto a mim, o Estado não merece os esforços que fiz para estudar, não merece os esforços que faço para divulgar o nome da cultura capixaba fora da “ilha”, não merece as defesas que faço quando tenho que vergonhosamente explicar a situação em que nos encontramos, nós, profissionais da cultura capixaba institucionalizada. Pior, o Estado não nos quer. Somos considerados pesos mortos. Acho que já ouvi uma expressão pior que esta: “somos a carcaça...mas não há cestas de lixo em volta...” infelizmente não lembro quem me disse isto. Não posso conter o riso quando penso nesta expressão. Então o governo tem consciência ecológica????
Acompanhamos ano passado a mudança de governo. Esta era a desculpa para não chegarmos ao final de uma negociação. Deveríamos esperar. Era necessário esperar...afinal quem já esperou por dezessete anos pode esperar por mais um....
Este ano estamos no impasse dos royalties. Tudo está sendo cortado. Corta-se aqui e ali mas não se cortam as regalias... Mas... incrível, ninguém conhece mesmo o Espírito Santo, como bem disse o nosso amigo no seu comentário, e infelizmente é verdade. Esta semana acompanhando as discussões sobre a questão dos royalties, vi que se falava muito dos três estados envolvidos. Falou-se extensivamente dos danos que seriam causados a Sergipe e ao Rio de Janeiro. Não se citou o nome do Estado do Espírito Santo. Então, talvez, para a mídia nacional vamos muito bem, obrigada!!! Então porque o impasse??
Muito bem dita a fala do nosso amigo: “sejamos idealistas com os nossos ideais, não com a falta de ideia dos que nos governam.”
Mudemos um pouco o foco e acredito que me farei mais clara quanto ao que quero dizer. Meu pai, homem sábio, da altura de seus 83 anos, viveu a Segunda Grande Guerra na pele. Fugiu, se escondeu, passou fome, desespero, medo, perdeu seu pai em uma atitude totalmente desumana, o que é redundante. O que é humano na guerra e ao mesmo tempo que seriam dos humanos se não fossem as guerras....deixo isto pros historiadores, mas enfim. Questiono meu pai muitas vezes sobre a guerra. Quero lembrar, quero não ter que esquecer os fatos ouvidos de uma fonte que viveu a História. Não para rememorar o sofrimento mas para que a lembrança persista para que o erro não ocorra novamente. Quero saber de quem esteve lá, se escondeu em meio aos porcos e enfrentou os soldados alemães por comida com apenas 15 anos de idade, sendo o mais velho de 6 filhos. Quero saber a verdade, e não o que está nos livros de História.
Me lembro que costumava perguntar a ele por que o resto de sua família não veio para o Brasil com ele e decidiu ficar trabalhando quase somente por comida depois da guerra, passando grandes necessidades...e ele, pacientemente me respondia. “Por que alguém tinha que ficar. O país precisava ser reconstruído. Não havia dinheiro para pagar salários e não havia ajuda internacional suficiente. Então alguns tinham que ir mas outros tinham que ficar. Quando eu saí, deixei de ser uma boca a mais para alimentar.” Eu continuava perguntando porque não foram embora, pra qualquer lugar...e ele de novo respondia: “porque haviam os filhos das gerações perdidas, e os filhos dos filhos....o país tinha que ser reconstruído PARA ELES.”
Meu pai sempre traça paralelos muito claros sobre as diferenças culturais entre os povos. Ele sempre dizia que os Holandeses pensavam no futuro das próximas gerações, assim como os japoneses, tanto que estes, na época da guerra, deram seu próprio sangue para reconstruir o país. E o entristecia o fato de ver um povo como o brasileiro ser tão imediatista. Ou seja, se não posso ver o resultado a curto prazo, então por que fazer? Enquanto os japoneses plantam árvores para que sejam vistas pelas próximas gerações, nosso governo não incentiva devidamente o reflorestamento e a proteção da Amazônia. Para quê? Ele não se beneficiará disto! E isto é só um pequeno exemplo. Não quero entrar neste mérito que, por si só gera uma discussão à parte.
Voltemos ao porque da insistência em melhorar as condições da cultura no Espírito Santo.
Eu quero saber que meus sobrinhos terão uma melhor educação e uma melhor bagagem cultural. Eu quero ter certeza que os meus alunos terão um mercado de trabalho à altura da sua capacidade. Eu quero plantar uma semente que vingará e não morrerá, como todas as outras que plantamos até agora porque atingiram um solo infértil, inóspito e às vezes até hostil por parte do governo. Eu quero uma próxima geração melhor que a minha. Quero melhores condições para eles. Eu quero evoluir e não me encouraçar neste lodaçal lamacento em que se transformou a cultura institucionalizada do Espírito Santo.
Eu quero fazer parte de uma geração que constrói para o futuro, e para que isto aconteça temos que mudar agora. Eu quero colocar o Espírito Santo no mapa da cultura brasileira, mas para isto, é necessário o empenho de todos. Da nossa parte todo o empenho tem sido feito. Infelizmente não há empenho das instituições governamentais responsáveis pela cultura do Espírito Santo. Não há vontade política em resolver a questão por ser uma questão que aparentemente em nada beneficiará a política do Estado, uma vez que cultura, na visão política a que estamos submetidos, não é valor. Valor é algo que se esconde nas cuecas, lembram-se? Que vergonha! Podiam ter pelo menos higiene estes aí! Mas se não se tem vergonha....terão o quê? Valor é a troca insana e vergonhosa de favores que beira o ridículo. Denúncias expostas todo dia! Valor é aquilo que a ilusão lhes oferece como bem perpétuo.
Meus senhores, sinto dizer-lhes mas todos os vossos esforços em nada resultarão porque desta vida só levarão as vossas consciências, e devo lembrar-lhes, ela em nada se parece com o grilo falante!!!

Monday, June 20, 2011

Comentários sobre a suposta pseudo-faculdade

Ah! Música vinculada à Universidade! Como isto é positivo! Realmente o contexto acadêmico universitário é bastante interessante. O caro colega que postou seu comentário abaixo anonimamente se referiu à Universidade de Brasília. Tive o prazer de tocar no Auditório da Universidade de Brasília há dois anos. Infelizmente vi uma estrutura deteriorada. Vi um auditório abandonado, instrumentos mal cuidados e os esforços de professores para manterem o patrimônio. Nesta troca de informações entre professores de uma mesma área acabamos por discutir os problemas enfrentados pelas nossas instituições e Brasília, como toda Universidade, tem varios problemas. Mas realmente concordo que o contexto universitário oferece uma gama muito mais aberta de possibilidades, se considerado o ambiente e as relações interdisciplinares. Mais ainda, existe a questão da pesquisa que é além de um direito, um dever do professor que queira se manter em sua posição representando sua instituição e a qualidade de seu trabalho. As universidades oferecem aos professores a chance de exercerem esta função. Mas infelizmente a universidade está perdendo alunos nos cursos de música, principalmente nos cursos de Bacharelado. Primeiro por que alguns cursos de Licenciatura não oferecem ao aluno a base instrumental necessária para lidar com a realidade do curso de música nas escolas ( o que também é um tema em discussão hoje em dia). Outra problema é a ausência de um curso de base, como o CFM, Curso de Formação Musical oferecido pela Faculdade de Música do Espírito Santo, esta pseudo-faculdade a que se referiu o colega.
Vejamos os fatos: As universidades oferecem licença remunerada ao professor para atualização de sua educação. Infelizmente à FAMES é negado este direito. Você deve estudar, mas arque você com as despesas. As universidades oferecem ao professor um salário compatível com sua graduação. Sabemos que o salário de um professor universitário hoje pode chegar até em torno de R$10.000,00, dependendo de sua titulação. O salário de um professor ativo e efetivo na FAMES pode chegar em torno de R$ 3.500,00 dependendo do seu tempo de serviço, não da sua titulação. Tivemos o exemplo do professor Antônio Marcos Cardoso que nos deixou cansado de esperar ver melhorada sua remuneração de menos de R$1.000,00, como Doutor. Digo Doutor com letra maiúscula, por que, ao contrário do que imagina o nobre colega, ele não foi um doutorando de igreja batista (se é que existe esta subqualificação do título). As universidades oferecem incentivo à pesquisa. Digas-me para onde levarás o nome da nossa nobre Instituição e lhe apoiaremos como pudermos ( o que nem sempre representa auxílio financeiro mas pelo menos você tem apoio). Os professores da FAMES estão começando, nesta gestão, a ter um apoio maior, verdade seja dita, mas ainda longe do que é necessário.
Enfim, as comparações são muitas mas ler seu comentário me fez pensar no que é ser uma pseudo-faculdade. A FAMES, apesar de ter esta faceta de “mero conservatório” como disse o caro colega tem tido seus alunos premiados nacional e internacionalmente. Tem sido representada por seus integrantes dentro e fora do país (às suas próprias custas, é verdade, mas tem). Tem sido exemplo de incentivo à performance e à interpretação, questões atualíssimas (vejamos todos os estudos feitos pela Universidade do Maranhão, com o nosso respeitável professor Me. Daniel Lemos). Tem investido em sua estrutura como pode e de maneira louvável. Infelizmente algumas questões não são passíveis de solução enquanto não houver uma nova sede ou uma grande reforma arquitetônica. Não tenho que escolher a dedo cadeiras para sentar, como há dois anos atrás, no Auditório da Universidade de Brasília.
Gostaria de deixar bem claro neste blog, e especialmente neste texto, que não sou contra a Faculdade de Música do Espírito Santo ou contra a pessoa à frente de sua gestão. Muito pelo contrário: sou a favor. Por isso escrevo, falo, questiono, ouço opiniões como a do colega, por que acredito que aqueles que enxergam a FAMES como uma pseudo-faculdade estão desatualizados. O mero conservatório tem produzido talentos inquestionáveis, em ambos os cursos que oferece, inclusive no Curso de Formação Musical. A mim não me importa se a FAMES é uma Universidade ou um Conservatório. A mim importa a qualidade do que se produz. O contexto pode ser transformado para obtenção das vantagens tanto de um como de outro. Mas a postura dos professores “doutorandos de igreja batista” (como já disse anteriormente, se é que existe esta subqualificação) ou as “esposas de pastores”, estes professores sempre estiveram presentes e esta rotulação colocada no comentário abaixo, nada tem a ver com a qualidade do trabalho que empenham. Honestamente não me importo se um profissional que trabalha comigo vem de uma universidade vinculada a uma religião. Fosse assim eu não concordaria com ninguém da PUC, ou de Cambridge, ou de qualquer grande universidade americana vinculada à religião batista. Confesso que não passei por esta experiência, uma vez que estudo em uma Universidade Pública que recebe excelentes professores de todas as partes do mundo e de todas as religiões. Não acho e nunca vou achar que a qualidade de um professor ou a excelência do trabalho de um intérprete está vinculada a uma religião. Profissionais desqualificados existirão a qualquer tempo e em qualquer lugar, em qualquer religião, em qualquer pseudo-faculdade, conservatório ou Universidade, no Brasil ou fora dele.
Concordo com o colega quanto a posição do Estado. Realmente. O Estado codifica, recodifica. Oprime e tiraniza e cria seus espelhos em volta. Mas neste caso, creio que somos exatamente o contrário, não acha? Se fôssemos um espelho do Estado não estaríamos tendo este debate. Se fôssemos um espelho do Estado definitivamente não teríamos nenhuma qualidade a oferecer. Consequentemente, discordo do nobre colega quanto à matéria prima. A matéria prima não é escassa. Pelo contrário, é abundante. Está a espera de um artesão que lhe dê a forma excepcional impressa na sua matéria. Os artesãos costumam dizer que o resultado de uma obra depende diretamente da qualidade da matéria. Se o mármore é primoroso, ele por si só é uma obra de arte. Mas se esquecido em um canto, torna-se empoeirado e corroído pelo tempo. E a discussão aqui é exatamente esta. Queremos que o Estado, o Governo do Estado do Espírito Santo, reconheça que é chegado o tempo de resolver a questão da sua matéria prima, a FAMES. É preciso dar o valor necessário a cada pedra bruta presente para ampliar ainda mais o seu valor. Não somos a imagem do Estado. Dentro do corpo da FAMES está a imagem que o Estado desconhece por ainda não merecer.

Saturday, June 18, 2011

Cultura e educação

Há uns dois dias atrás assisti a uma entrevista com o Wisnick. Em algum momento foi perguntado a ele o que ele achava da hipótese de que o Brasil se tornaria uma das grandes potências do mundo durante este século. Economicamente e ....culturalmente...O quê? Que hipótese é esta? Uma das grandes potências culturais do mundo nos próximos cem anos? Como? Qual a possibilidade de que isto ocorra se cultura e educação devem e caminham lado a lado? O sábio Wisnick respondeu que ele acreditava que isso poderia ser possível SE o Brasil conseguisse que os brasileiros soubessem ler um parágrafo, pois que educação e cultura não podem evoluir separadamente. Tomo aqui a liberdade da escrita para resumir o que disse o nosso caríssimo professor.
Concordo com ele. Sou obrigada a concordar. A maioria do povo brasileiro continua recebendo uma educação de má qualidade e uma bagagem cultural ditada por potências do meio econômico. A bem da verdade, são muitos os projetos para o incentivo da cultura. Incontáveis. Mas raramente contemplam o que realmente é importante. Vezes sem conta o papel da propagação cultural que deveria ser feita pelos meios competentes é feita por sociedades não ligadas ao governo, excercendo elas mesmas o papel de mantenedoras do fenômeno cultural. Muitas vezes sem nenhum apoio das entidades governamentais.
Volto ao meu tópico postado anteriormente. Me lembro dos meus alunos na Faculdade de Música. Me lembro dos Concertos Didáticos realizados pela orquestra. Ainda hoje passo por alguns antigos alunos que saíram de uma realidade difícil, complicada, e aprenderam muito mais do que ler um parágrafo. Aprenderam a escrever suas próprias vidas usando a música como meio. Aprenderam a se dar valor, a ter auto-estima, a se olhar no espelho e dizer "eu valho a pena".
Recordo dos textos de psicologia que li, das pesquisas que fiz para aplicação da didática musical...pedagogia...metodologia do século XXI...
Besteira!
A psicologia é, a cada aula valorizar o seu aluno, mostrar a ele quantos parágrafos ele pode escrever! A didática musical é apresentar a ele o valor da música em sua vida, como meio de vida e como ferramenta para a construção de uma vida saudável e possível.
Paradoxo...
Se bem que não. Tenho colegas de trabalho contratados recentemente, após graduar-se como Bacharéis, que ganham bem mais que eu, considerando a carga de trabalho. Os que tiveram a sorte de fazer um curso de Mestrado estão ainda melhores. Fico feliz por eles por que vejo a coroação de todo um trabalho feito pela Faculdade.
Mas fico triste quanto a mim. Estudei com o meu próprio ônus, passei anos longe da minha família e amigos, enfrentei situações que nunca pensei. Voltei. Esperançosa de ver uma mudança, uma luz no fim do túnel, uma garantia não somente para mim mas para estes mesmos alunos para que não parem por aí. Uma garantia de que eu poderia permanecer no lugar que escolhi para viver e contribuir.
Nada. Minha formação de Mestre nada vale, ao contrário deles. Minha formação de Doutoranda também nada conta. Sou uma das cabeças pensantes mas me sinto sugada por um governo que somente tira e não dá. Cobra mas não oferece. Oprime e tiraniza por meios muitos sutis de terrorismo psicológico.
Sr. Governador, mudanças são positivas. Trazem benefícios a todos, se bem aplicadas. Melhorias estruturais são bem vindas mas não pagam as minhas contas. Projetos purulando aos milhares, porque são necessários grandes holofotes para que nos veja, também não faltam mas ainda assim mais trabalho não remunerado adequadamente não resolverá o problema das dívidas que tenho e da família que sustento.
O que me indigna é a comiseração generalizada que paira no ar e ainda assim nenhuma atitude é tomada, como se fôssemos literalmente desviados de nossos direitos em detrimento de mais deveres. Me sinto como um dos pagadores de impostos da Idade Média...como costumava ler nas estórias de Robin Hood....constantemente usurpada de seus direitos em benefício daqueles que se apropriaram deles. Me sinto roubada. É um fato comum, eu acredito. Nós brasileiros não gostamos da violência, não gostamos da miséria, dos maus tratos na saúde, não gostamos da educação que vemos aplicada nas escolas públicas. Mas de alguma forma nos acostumamos a ficar calados frente a tudo isto. Não nos manifestamos, não nos rebelamos, ficamos indignados, comentamos, mas isto é tudo que fazemos. Vez por outra algum segmento acaba em greve e em "negociação". Leiloam-se a perseverança, a força de espírito. Ainda negociamos, nós e o Sr. Governador, quem quer que ocupe o cargo, por 17 anos. Perdemos todos os direitos que tínhamos por causa desta tirania psicológica. Qual a validade de uma Faculdade de Música? Uma Orquestra?? Pra quê isso? Tínhamos ticket alimentação, vale-transporte, ajuda no plano de saúde, licença remunerada para estudar, consequentemente tínhamos um plano de carreira e de salários.....Tudo foi usurpado, sem mais nem menos. E ainda ouvíamos...."e vocês ainda ganham pra fazer música?" Será que isto é um resquício da ditadura? Algum sociólogo deveria responder a esta questão, se é que já não foi respondida. Que valor tem a educação para o Sr. Governador? Que valor tem a cultura para o Sr. Governador? Minha mãe costumava dizer sabiamente: "Filha, alguém só pode dar aquilo que tem. Alguns valores não podem ser ensinados. Estão impressos no caráter do ser." Quero crer que isso possa ser mudado....

Wednesday, June 15, 2011

E onde vamos parar?

Acabo de passar por uma das mais bizarras situações que poderia ter imaginado. A quem pertence o direito de lutar pela cultura? A nós, fabricantes e perpetuadores desta formadora de seres e opiniões? Infelizmente não. A tarefa de lutar pela cultura cabe àqueles que a usurpam da pior forma. Retirando dela o poder de transformação. Estamos de volta ao estado do provincianato. Somos um Estado provinciano. Admitamos. Qual é a marca da cultura do Espírito Santo? Quais são nossos valores culturais? A quem é dado o direito de responder por você que busca pela cultura que forma e permeia o ser humano? Hoje houve um concerto. Magnífico. Ah!Que seria de nós sem a música para esconder a sujeira embaixo do tapete? Por alguns momentos nos esquecemos da realidade deprimente, enojante e causticante que oprime as instituições da cultura capixaba. Que diriam nossos companheiros de profissão em outros Estados se soubessem que em instituições de ensino superior públicas não existem planos de carreira no Estado? Que importa você, Doutor....tenho aqui um "gajo" que pode bem me servir sem reclamações. Isso geraria, como gera, um estampido de risadas completamente atônitas ante tal desrespeito. Surreal, de tirar o fôlego. Entendemos a política, sim, entendemos. Não aceitamos mas engolimos. Até quando? Até quando nos imprensarem contra a parede de tal modo que não poderemos mais resistir e teremos que evadir como outros colegas que não resistiram e infelizmente nos deixaram. Estão melhores que nós, e o Estado, bem, este entregue a um governo organizado, orgulhoso de seu crescimento econônimo. Onde está? Alguém já visitou o Hospital São Lucas em uma sexta-feira à noite? Caos. Alguém já teve a curiosidade de visitar uma Escola Pública? Sem coragem. Alguém anda seguro à noite? O Estado está um caos. E de que estamos rindo? Qual é a piada? Estamos indo de mal a pior. Alguém já teve a curiosidade de pesquisar quantos casos de depressão estão sendo registrados no funcionarismo público? Não? São números exorbitantes.
Voltemos à cultura. Voltemos a nossa amada orquestra, aviltada por baixos salários, políticas distorcidas e sem plano de carreira ou enquadramento por titulação. Voltemos à nossa Faculdade de Música! Quanta produção musical! Quantos talentos! Quantos holofotes!!! E nenhum respeito pelo trabalho do professor por parte do governo. Sem enquadramento, o que significa dizer que você pode ter passado anos e anos estudando por sua conta, que isto se frise, e não ter nenhum reconhecimento por isso. Somente a usurpação do seu diploma para se tornar estatística.
Estou indignada. Estou enojada. Espírito Santo, ame-o ou deixe-o. Muitos já foram. Quantos miseráveis ainda seremos defendendo este forte que há muito foi conquistado por aqueles que enxergam a cultura e a educação como acessório? Infelizmente esta é a visão do Espírito Santo lá fora. Na foto, orquestra bonita....e no resto? Quem vai apagar a luz? A ignorância é abençoada pelos políticos que encontram na massa desorganizada e inculta um veículo fácil de manipulação.
Não sei se alguém chegará a ler isto mas se ler, informe-se. Os músicos da orquestra pedem ajuda. Os professores da Faculdade de Música pedem ajuda. Conscientizem-se da realidade. Por fora, uma linda imagem. Por dentro, uma maçã podre.

Por Paula Galama

Monday, January 3, 2011

Breathtaking


Hoje, primeira semana do ano, primeira segunda-feira do ano. Devo dizer que esta experiência de escrever um blog é terrivelmente assustadora por um lado. Gostaria de escrever sobre coisas que passam pela minha mente, pela minha emoção, por um completo discernimento do que deve ser mostrado e o que deve ser guardado, na intimidade. Para alguns, intimidade também passou a ser uma palavra assustadora. Para outros deixou de ser aquilo que, de direito, pertence só a você para ser algo que, de acordo com os padrões atuais de cultura, convencionou-se ser de domínio público. Então eis-me aqui. Nenhuma ligação com a literatura. Apenas a vontade de expor minhas idéias. Profissionalmente eu as farei em outro blog mas este...bem, tinha que ser diferente.


Quando criei este blog, criei por acaso, literalmente. Acredite. Cliquei em um ícone....e lá estava ele, criado, moldado, impossível de ser desfeito, quase uma gravidez indesejada. Tão fácil de existir...quase impossível de desfazer. Que nome dar a um filho que foi um acidente de percurso? Que futuro escolher para ele? Seguirá ele meus passos pessoais, ou minha carreira? Seré ele um molde de mim mesmo? Creio que não. Mas pensei...já que ele existe, por que não?Aqui não morrerá!


Breathtaking....foi o título que escolhi depois de um outro título muito sui generis de "política do desespero". 2011 cá está. A política do desespero está instaurada na solidão daqueles que choram miseravelmente por migalhas e esmolas nas ruas...política...ato de barganhar por alguma coisa. Troca-se a dor por qualquer paleativo que possa aplacar o estômago. Esta mesma política está plantada em cada árvore que derrubamos que pede em troca deixemos que nasçam suas sementes em troca de sua madeira. Está aviltosamente cravada em cada pedra de crack que é trocada, em nome do desespero. E a política...normal....trocam-se favores por dinheiro, dinheiro por outros favores....por favor, lavem suas cuecas...se há que haver troca, que pelo menos seja higiênica.


É de tirar o fôlego. A política do desespero pelo menos tem um fundo de honestidade. A troca é em função da sobrevivência...mas e quem não tem o que trocar? E quem não tem poder de barganha? E quem não entende nada de política? Este recorre a outro tipo de política do desespero sem o saber. A política religiosa. Certa vez, li que todos os lugares onde as pessoas se reúnem em nome de Deus são abençoados. Ah..me lembrei do Sermão da Montanha...."vinde a mim os fracos e oprimidos..." e quantos fracos e oprimidos tem praticado a política do desespero sem o saber...


Mas não cliquei naquele ícone pensando em política. Por um momento pensei que poderia expor minhas frustrações mas agora penso que não quero aderir `a política do desespero. Quero me dar o luxo de falar de uma nova política: a politica da razão, do bom senso. E em minha opinião, a política da razão está profundamente ligada ao que sei mas não ao que aprendi nos livros, nas escolas, nos estudos. Está ligada sim, à vida, às minhas experiências, falhas, erros, sucessos, como esposa, como filha, como irmã, como amiga. Esta política me dá forças, não para barganhar mas para renunciar. Renunciar às minhas escolhas ruins, renunciar à palavra desejada antes que seja proferida, renunciar, mesmo que a política do desespero fale mais alto porque assim sim, estarei exercendo uma outra política: a política cristã, ou a política do livre arbítrio. Somos livres, você sabia?


É de tirar o fôlego, realmente, escolher das duas formas. Uma, retira seu fôlego, causando a hibernação do que há de bom em você. A outra, lhe retira o fôlego, com certeza, mas por enchê-lo de um amor incondicional que só a experiência da renúncia pode lhe dar.


Experimente ficar sem fôlego uma única vez por renunciar àquilo que lhe cega os olhos e o espírito. Garanto a você que quando respirar de novo, será como encher seu pulmões de um ar fresco, revigorado, que renovará você por inteiro!


Breathtaking....




Por Paula Galama