Monday, June 20, 2011

Comentários sobre a suposta pseudo-faculdade

Ah! Música vinculada à Universidade! Como isto é positivo! Realmente o contexto acadêmico universitário é bastante interessante. O caro colega que postou seu comentário abaixo anonimamente se referiu à Universidade de Brasília. Tive o prazer de tocar no Auditório da Universidade de Brasília há dois anos. Infelizmente vi uma estrutura deteriorada. Vi um auditório abandonado, instrumentos mal cuidados e os esforços de professores para manterem o patrimônio. Nesta troca de informações entre professores de uma mesma área acabamos por discutir os problemas enfrentados pelas nossas instituições e Brasília, como toda Universidade, tem varios problemas. Mas realmente concordo que o contexto universitário oferece uma gama muito mais aberta de possibilidades, se considerado o ambiente e as relações interdisciplinares. Mais ainda, existe a questão da pesquisa que é além de um direito, um dever do professor que queira se manter em sua posição representando sua instituição e a qualidade de seu trabalho. As universidades oferecem aos professores a chance de exercerem esta função. Mas infelizmente a universidade está perdendo alunos nos cursos de música, principalmente nos cursos de Bacharelado. Primeiro por que alguns cursos de Licenciatura não oferecem ao aluno a base instrumental necessária para lidar com a realidade do curso de música nas escolas ( o que também é um tema em discussão hoje em dia). Outra problema é a ausência de um curso de base, como o CFM, Curso de Formação Musical oferecido pela Faculdade de Música do Espírito Santo, esta pseudo-faculdade a que se referiu o colega.
Vejamos os fatos: As universidades oferecem licença remunerada ao professor para atualização de sua educação. Infelizmente à FAMES é negado este direito. Você deve estudar, mas arque você com as despesas. As universidades oferecem ao professor um salário compatível com sua graduação. Sabemos que o salário de um professor universitário hoje pode chegar até em torno de R$10.000,00, dependendo de sua titulação. O salário de um professor ativo e efetivo na FAMES pode chegar em torno de R$ 3.500,00 dependendo do seu tempo de serviço, não da sua titulação. Tivemos o exemplo do professor Antônio Marcos Cardoso que nos deixou cansado de esperar ver melhorada sua remuneração de menos de R$1.000,00, como Doutor. Digo Doutor com letra maiúscula, por que, ao contrário do que imagina o nobre colega, ele não foi um doutorando de igreja batista (se é que existe esta subqualificação do título). As universidades oferecem incentivo à pesquisa. Digas-me para onde levarás o nome da nossa nobre Instituição e lhe apoiaremos como pudermos ( o que nem sempre representa auxílio financeiro mas pelo menos você tem apoio). Os professores da FAMES estão começando, nesta gestão, a ter um apoio maior, verdade seja dita, mas ainda longe do que é necessário.
Enfim, as comparações são muitas mas ler seu comentário me fez pensar no que é ser uma pseudo-faculdade. A FAMES, apesar de ter esta faceta de “mero conservatório” como disse o caro colega tem tido seus alunos premiados nacional e internacionalmente. Tem sido representada por seus integrantes dentro e fora do país (às suas próprias custas, é verdade, mas tem). Tem sido exemplo de incentivo à performance e à interpretação, questões atualíssimas (vejamos todos os estudos feitos pela Universidade do Maranhão, com o nosso respeitável professor Me. Daniel Lemos). Tem investido em sua estrutura como pode e de maneira louvável. Infelizmente algumas questões não são passíveis de solução enquanto não houver uma nova sede ou uma grande reforma arquitetônica. Não tenho que escolher a dedo cadeiras para sentar, como há dois anos atrás, no Auditório da Universidade de Brasília.
Gostaria de deixar bem claro neste blog, e especialmente neste texto, que não sou contra a Faculdade de Música do Espírito Santo ou contra a pessoa à frente de sua gestão. Muito pelo contrário: sou a favor. Por isso escrevo, falo, questiono, ouço opiniões como a do colega, por que acredito que aqueles que enxergam a FAMES como uma pseudo-faculdade estão desatualizados. O mero conservatório tem produzido talentos inquestionáveis, em ambos os cursos que oferece, inclusive no Curso de Formação Musical. A mim não me importa se a FAMES é uma Universidade ou um Conservatório. A mim importa a qualidade do que se produz. O contexto pode ser transformado para obtenção das vantagens tanto de um como de outro. Mas a postura dos professores “doutorandos de igreja batista” (como já disse anteriormente, se é que existe esta subqualificação) ou as “esposas de pastores”, estes professores sempre estiveram presentes e esta rotulação colocada no comentário abaixo, nada tem a ver com a qualidade do trabalho que empenham. Honestamente não me importo se um profissional que trabalha comigo vem de uma universidade vinculada a uma religião. Fosse assim eu não concordaria com ninguém da PUC, ou de Cambridge, ou de qualquer grande universidade americana vinculada à religião batista. Confesso que não passei por esta experiência, uma vez que estudo em uma Universidade Pública que recebe excelentes professores de todas as partes do mundo e de todas as religiões. Não acho e nunca vou achar que a qualidade de um professor ou a excelência do trabalho de um intérprete está vinculada a uma religião. Profissionais desqualificados existirão a qualquer tempo e em qualquer lugar, em qualquer religião, em qualquer pseudo-faculdade, conservatório ou Universidade, no Brasil ou fora dele.
Concordo com o colega quanto a posição do Estado. Realmente. O Estado codifica, recodifica. Oprime e tiraniza e cria seus espelhos em volta. Mas neste caso, creio que somos exatamente o contrário, não acha? Se fôssemos um espelho do Estado não estaríamos tendo este debate. Se fôssemos um espelho do Estado definitivamente não teríamos nenhuma qualidade a oferecer. Consequentemente, discordo do nobre colega quanto à matéria prima. A matéria prima não é escassa. Pelo contrário, é abundante. Está a espera de um artesão que lhe dê a forma excepcional impressa na sua matéria. Os artesãos costumam dizer que o resultado de uma obra depende diretamente da qualidade da matéria. Se o mármore é primoroso, ele por si só é uma obra de arte. Mas se esquecido em um canto, torna-se empoeirado e corroído pelo tempo. E a discussão aqui é exatamente esta. Queremos que o Estado, o Governo do Estado do Espírito Santo, reconheça que é chegado o tempo de resolver a questão da sua matéria prima, a FAMES. É preciso dar o valor necessário a cada pedra bruta presente para ampliar ainda mais o seu valor. Não somos a imagem do Estado. Dentro do corpo da FAMES está a imagem que o Estado desconhece por ainda não merecer.

Saturday, June 18, 2011

Cultura e educação

Há uns dois dias atrás assisti a uma entrevista com o Wisnick. Em algum momento foi perguntado a ele o que ele achava da hipótese de que o Brasil se tornaria uma das grandes potências do mundo durante este século. Economicamente e ....culturalmente...O quê? Que hipótese é esta? Uma das grandes potências culturais do mundo nos próximos cem anos? Como? Qual a possibilidade de que isto ocorra se cultura e educação devem e caminham lado a lado? O sábio Wisnick respondeu que ele acreditava que isso poderia ser possível SE o Brasil conseguisse que os brasileiros soubessem ler um parágrafo, pois que educação e cultura não podem evoluir separadamente. Tomo aqui a liberdade da escrita para resumir o que disse o nosso caríssimo professor.
Concordo com ele. Sou obrigada a concordar. A maioria do povo brasileiro continua recebendo uma educação de má qualidade e uma bagagem cultural ditada por potências do meio econômico. A bem da verdade, são muitos os projetos para o incentivo da cultura. Incontáveis. Mas raramente contemplam o que realmente é importante. Vezes sem conta o papel da propagação cultural que deveria ser feita pelos meios competentes é feita por sociedades não ligadas ao governo, excercendo elas mesmas o papel de mantenedoras do fenômeno cultural. Muitas vezes sem nenhum apoio das entidades governamentais.
Volto ao meu tópico postado anteriormente. Me lembro dos meus alunos na Faculdade de Música. Me lembro dos Concertos Didáticos realizados pela orquestra. Ainda hoje passo por alguns antigos alunos que saíram de uma realidade difícil, complicada, e aprenderam muito mais do que ler um parágrafo. Aprenderam a escrever suas próprias vidas usando a música como meio. Aprenderam a se dar valor, a ter auto-estima, a se olhar no espelho e dizer "eu valho a pena".
Recordo dos textos de psicologia que li, das pesquisas que fiz para aplicação da didática musical...pedagogia...metodologia do século XXI...
Besteira!
A psicologia é, a cada aula valorizar o seu aluno, mostrar a ele quantos parágrafos ele pode escrever! A didática musical é apresentar a ele o valor da música em sua vida, como meio de vida e como ferramenta para a construção de uma vida saudável e possível.
Paradoxo...
Se bem que não. Tenho colegas de trabalho contratados recentemente, após graduar-se como Bacharéis, que ganham bem mais que eu, considerando a carga de trabalho. Os que tiveram a sorte de fazer um curso de Mestrado estão ainda melhores. Fico feliz por eles por que vejo a coroação de todo um trabalho feito pela Faculdade.
Mas fico triste quanto a mim. Estudei com o meu próprio ônus, passei anos longe da minha família e amigos, enfrentei situações que nunca pensei. Voltei. Esperançosa de ver uma mudança, uma luz no fim do túnel, uma garantia não somente para mim mas para estes mesmos alunos para que não parem por aí. Uma garantia de que eu poderia permanecer no lugar que escolhi para viver e contribuir.
Nada. Minha formação de Mestre nada vale, ao contrário deles. Minha formação de Doutoranda também nada conta. Sou uma das cabeças pensantes mas me sinto sugada por um governo que somente tira e não dá. Cobra mas não oferece. Oprime e tiraniza por meios muitos sutis de terrorismo psicológico.
Sr. Governador, mudanças são positivas. Trazem benefícios a todos, se bem aplicadas. Melhorias estruturais são bem vindas mas não pagam as minhas contas. Projetos purulando aos milhares, porque são necessários grandes holofotes para que nos veja, também não faltam mas ainda assim mais trabalho não remunerado adequadamente não resolverá o problema das dívidas que tenho e da família que sustento.
O que me indigna é a comiseração generalizada que paira no ar e ainda assim nenhuma atitude é tomada, como se fôssemos literalmente desviados de nossos direitos em detrimento de mais deveres. Me sinto como um dos pagadores de impostos da Idade Média...como costumava ler nas estórias de Robin Hood....constantemente usurpada de seus direitos em benefício daqueles que se apropriaram deles. Me sinto roubada. É um fato comum, eu acredito. Nós brasileiros não gostamos da violência, não gostamos da miséria, dos maus tratos na saúde, não gostamos da educação que vemos aplicada nas escolas públicas. Mas de alguma forma nos acostumamos a ficar calados frente a tudo isto. Não nos manifestamos, não nos rebelamos, ficamos indignados, comentamos, mas isto é tudo que fazemos. Vez por outra algum segmento acaba em greve e em "negociação". Leiloam-se a perseverança, a força de espírito. Ainda negociamos, nós e o Sr. Governador, quem quer que ocupe o cargo, por 17 anos. Perdemos todos os direitos que tínhamos por causa desta tirania psicológica. Qual a validade de uma Faculdade de Música? Uma Orquestra?? Pra quê isso? Tínhamos ticket alimentação, vale-transporte, ajuda no plano de saúde, licença remunerada para estudar, consequentemente tínhamos um plano de carreira e de salários.....Tudo foi usurpado, sem mais nem menos. E ainda ouvíamos...."e vocês ainda ganham pra fazer música?" Será que isto é um resquício da ditadura? Algum sociólogo deveria responder a esta questão, se é que já não foi respondida. Que valor tem a educação para o Sr. Governador? Que valor tem a cultura para o Sr. Governador? Minha mãe costumava dizer sabiamente: "Filha, alguém só pode dar aquilo que tem. Alguns valores não podem ser ensinados. Estão impressos no caráter do ser." Quero crer que isso possa ser mudado....

Wednesday, June 15, 2011

E onde vamos parar?

Acabo de passar por uma das mais bizarras situações que poderia ter imaginado. A quem pertence o direito de lutar pela cultura? A nós, fabricantes e perpetuadores desta formadora de seres e opiniões? Infelizmente não. A tarefa de lutar pela cultura cabe àqueles que a usurpam da pior forma. Retirando dela o poder de transformação. Estamos de volta ao estado do provincianato. Somos um Estado provinciano. Admitamos. Qual é a marca da cultura do Espírito Santo? Quais são nossos valores culturais? A quem é dado o direito de responder por você que busca pela cultura que forma e permeia o ser humano? Hoje houve um concerto. Magnífico. Ah!Que seria de nós sem a música para esconder a sujeira embaixo do tapete? Por alguns momentos nos esquecemos da realidade deprimente, enojante e causticante que oprime as instituições da cultura capixaba. Que diriam nossos companheiros de profissão em outros Estados se soubessem que em instituições de ensino superior públicas não existem planos de carreira no Estado? Que importa você, Doutor....tenho aqui um "gajo" que pode bem me servir sem reclamações. Isso geraria, como gera, um estampido de risadas completamente atônitas ante tal desrespeito. Surreal, de tirar o fôlego. Entendemos a política, sim, entendemos. Não aceitamos mas engolimos. Até quando? Até quando nos imprensarem contra a parede de tal modo que não poderemos mais resistir e teremos que evadir como outros colegas que não resistiram e infelizmente nos deixaram. Estão melhores que nós, e o Estado, bem, este entregue a um governo organizado, orgulhoso de seu crescimento econônimo. Onde está? Alguém já visitou o Hospital São Lucas em uma sexta-feira à noite? Caos. Alguém já teve a curiosidade de visitar uma Escola Pública? Sem coragem. Alguém anda seguro à noite? O Estado está um caos. E de que estamos rindo? Qual é a piada? Estamos indo de mal a pior. Alguém já teve a curiosidade de pesquisar quantos casos de depressão estão sendo registrados no funcionarismo público? Não? São números exorbitantes.
Voltemos à cultura. Voltemos a nossa amada orquestra, aviltada por baixos salários, políticas distorcidas e sem plano de carreira ou enquadramento por titulação. Voltemos à nossa Faculdade de Música! Quanta produção musical! Quantos talentos! Quantos holofotes!!! E nenhum respeito pelo trabalho do professor por parte do governo. Sem enquadramento, o que significa dizer que você pode ter passado anos e anos estudando por sua conta, que isto se frise, e não ter nenhum reconhecimento por isso. Somente a usurpação do seu diploma para se tornar estatística.
Estou indignada. Estou enojada. Espírito Santo, ame-o ou deixe-o. Muitos já foram. Quantos miseráveis ainda seremos defendendo este forte que há muito foi conquistado por aqueles que enxergam a cultura e a educação como acessório? Infelizmente esta é a visão do Espírito Santo lá fora. Na foto, orquestra bonita....e no resto? Quem vai apagar a luz? A ignorância é abençoada pelos políticos que encontram na massa desorganizada e inculta um veículo fácil de manipulação.
Não sei se alguém chegará a ler isto mas se ler, informe-se. Os músicos da orquestra pedem ajuda. Os professores da Faculdade de Música pedem ajuda. Conscientizem-se da realidade. Por fora, uma linda imagem. Por dentro, uma maçã podre.

Por Paula Galama