Tomou-me um certo assombro quando li o comentário do meu amigo Antônio Marcos Cardoso ao último texto postado no blog. Tive que me recompor. Me senti sem chão, jogada a uma realidade da qual não posso fugir. Bravo e indômito foi o Tonico. Desbravou fora da “ilha” e descobriu um mundo novo. Nós, aqui ancorados, vez por outra navegamos para fora, refazemos nossos ares e nossas energias e voltamos, esperando pelo menos manter a nossa sanidade. Infelizmente seu comentário me atingiu de uma forma que acredito nem mesmo ele esperava. Escrevi-lhe contando a minha reação e ele na sua generosidade usual me explicou mais detalhadamente seu ponto de vista. Basicamente ele resumiu seu comentário em uma frase: “o Espírito Santo não merece você!”
Entendi suas colocações e concordo com elas. O Espírito Santo não nos merece. A todos nós que não podendo sair, ficamos, brava gente brasileira. Quanto a mim, o Estado não merece os esforços que fiz para estudar, não merece os esforços que faço para divulgar o nome da cultura capixaba fora da “ilha”, não merece as defesas que faço quando tenho que vergonhosamente explicar a situação em que nos encontramos, nós, profissionais da cultura capixaba institucionalizada. Pior, o Estado não nos quer. Somos considerados pesos mortos. Acho que já ouvi uma expressão pior que esta: “somos a carcaça...mas não há cestas de lixo em volta...” infelizmente não lembro quem me disse isto. Não posso conter o riso quando penso nesta expressão. Então o governo tem consciência ecológica????
Acompanhamos ano passado a mudança de governo. Esta era a desculpa para não chegarmos ao final de uma negociação. Deveríamos esperar. Era necessário esperar...afinal quem já esperou por dezessete anos pode esperar por mais um....
Este ano estamos no impasse dos royalties. Tudo está sendo cortado. Corta-se aqui e ali mas não se cortam as regalias... Mas... incrível, ninguém conhece mesmo o Espírito Santo, como bem disse o nosso amigo no seu comentário, e infelizmente é verdade. Esta semana acompanhando as discussões sobre a questão dos royalties, vi que se falava muito dos três estados envolvidos. Falou-se extensivamente dos danos que seriam causados a Sergipe e ao Rio de Janeiro. Não se citou o nome do Estado do Espírito Santo. Então, talvez, para a mídia nacional vamos muito bem, obrigada!!! Então porque o impasse??
Muito bem dita a fala do nosso amigo: “sejamos idealistas com os nossos ideais, não com a falta de ideia dos que nos governam.”
Mudemos um pouco o foco e acredito que me farei mais clara quanto ao que quero dizer. Meu pai, homem sábio, da altura de seus 83 anos, viveu a Segunda Grande Guerra na pele. Fugiu, se escondeu, passou fome, desespero, medo, perdeu seu pai em uma atitude totalmente desumana, o que é redundante. O que é humano na guerra e ao mesmo tempo que seriam dos humanos se não fossem as guerras....deixo isto pros historiadores, mas enfim. Questiono meu pai muitas vezes sobre a guerra. Quero lembrar, quero não ter que esquecer os fatos ouvidos de uma fonte que viveu a História. Não para rememorar o sofrimento mas para que a lembrança persista para que o erro não ocorra novamente. Quero saber de quem esteve lá, se escondeu em meio aos porcos e enfrentou os soldados alemães por comida com apenas 15 anos de idade, sendo o mais velho de 6 filhos. Quero saber a verdade, e não o que está nos livros de História.
Me lembro que costumava perguntar a ele por que o resto de sua família não veio para o Brasil com ele e decidiu ficar trabalhando quase somente por comida depois da guerra, passando grandes necessidades...e ele, pacientemente me respondia. “Por que alguém tinha que ficar. O país precisava ser reconstruído. Não havia dinheiro para pagar salários e não havia ajuda internacional suficiente. Então alguns tinham que ir mas outros tinham que ficar. Quando eu saí, deixei de ser uma boca a mais para alimentar.” Eu continuava perguntando porque não foram embora, pra qualquer lugar...e ele de novo respondia: “porque haviam os filhos das gerações perdidas, e os filhos dos filhos....o país tinha que ser reconstruído PARA ELES.”
Meu pai sempre traça paralelos muito claros sobre as diferenças culturais entre os povos. Ele sempre dizia que os Holandeses pensavam no futuro das próximas gerações, assim como os japoneses, tanto que estes, na época da guerra, deram seu próprio sangue para reconstruir o país. E o entristecia o fato de ver um povo como o brasileiro ser tão imediatista. Ou seja, se não posso ver o resultado a curto prazo, então por que fazer? Enquanto os japoneses plantam árvores para que sejam vistas pelas próximas gerações, nosso governo não incentiva devidamente o reflorestamento e a proteção da Amazônia. Para quê? Ele não se beneficiará disto! E isto é só um pequeno exemplo. Não quero entrar neste mérito que, por si só gera uma discussão à parte.
Voltemos ao porque da insistência em melhorar as condições da cultura no Espírito Santo.
Muito bem dita a fala do nosso amigo: “sejamos idealistas com os nossos ideais, não com a falta de ideia dos que nos governam.”
Mudemos um pouco o foco e acredito que me farei mais clara quanto ao que quero dizer. Meu pai, homem sábio, da altura de seus 83 anos, viveu a Segunda Grande Guerra na pele. Fugiu, se escondeu, passou fome, desespero, medo, perdeu seu pai em uma atitude totalmente desumana, o que é redundante. O que é humano na guerra e ao mesmo tempo que seriam dos humanos se não fossem as guerras....deixo isto pros historiadores, mas enfim. Questiono meu pai muitas vezes sobre a guerra. Quero lembrar, quero não ter que esquecer os fatos ouvidos de uma fonte que viveu a História. Não para rememorar o sofrimento mas para que a lembrança persista para que o erro não ocorra novamente. Quero saber de quem esteve lá, se escondeu em meio aos porcos e enfrentou os soldados alemães por comida com apenas 15 anos de idade, sendo o mais velho de 6 filhos. Quero saber a verdade, e não o que está nos livros de História.
Me lembro que costumava perguntar a ele por que o resto de sua família não veio para o Brasil com ele e decidiu ficar trabalhando quase somente por comida depois da guerra, passando grandes necessidades...e ele, pacientemente me respondia. “Por que alguém tinha que ficar. O país precisava ser reconstruído. Não havia dinheiro para pagar salários e não havia ajuda internacional suficiente. Então alguns tinham que ir mas outros tinham que ficar. Quando eu saí, deixei de ser uma boca a mais para alimentar.” Eu continuava perguntando porque não foram embora, pra qualquer lugar...e ele de novo respondia: “porque haviam os filhos das gerações perdidas, e os filhos dos filhos....o país tinha que ser reconstruído PARA ELES.”
Meu pai sempre traça paralelos muito claros sobre as diferenças culturais entre os povos. Ele sempre dizia que os Holandeses pensavam no futuro das próximas gerações, assim como os japoneses, tanto que estes, na época da guerra, deram seu próprio sangue para reconstruir o país. E o entristecia o fato de ver um povo como o brasileiro ser tão imediatista. Ou seja, se não posso ver o resultado a curto prazo, então por que fazer? Enquanto os japoneses plantam árvores para que sejam vistas pelas próximas gerações, nosso governo não incentiva devidamente o reflorestamento e a proteção da Amazônia. Para quê? Ele não se beneficiará disto! E isto é só um pequeno exemplo. Não quero entrar neste mérito que, por si só gera uma discussão à parte.
Voltemos ao porque da insistência em melhorar as condições da cultura no Espírito Santo.
Eu quero saber que meus sobrinhos terão uma melhor educação e uma melhor bagagem cultural. Eu quero ter certeza que os meus alunos terão um mercado de trabalho à altura da sua capacidade. Eu quero plantar uma semente que vingará e não morrerá, como todas as outras que plantamos até agora porque atingiram um solo infértil, inóspito e às vezes até hostil por parte do governo. Eu quero uma próxima geração melhor que a minha. Quero melhores condições para eles. Eu quero evoluir e não me encouraçar neste lodaçal lamacento em que se transformou a cultura institucionalizada do Espírito Santo.
Eu quero fazer parte de uma geração que constrói para o futuro, e para que isto aconteça temos que mudar agora. Eu quero colocar o Espírito Santo no mapa da cultura brasileira, mas para isto, é necessário o empenho de todos. Da nossa parte todo o empenho tem sido feito. Infelizmente não há empenho das instituições governamentais responsáveis pela cultura do Espírito Santo. Não há vontade política em resolver a questão por ser uma questão que aparentemente em nada beneficiará a política do Estado, uma vez que cultura, na visão política a que estamos submetidos, não é valor. Valor é algo que se esconde nas cuecas, lembram-se? Que vergonha! Podiam ter pelo menos higiene estes aí! Mas se não se tem vergonha....terão o quê? Valor é a troca insana e vergonhosa de favores que beira o ridículo. Denúncias expostas todo dia! Valor é aquilo que a ilusão lhes oferece como bem perpétuo.
Meus senhores, sinto dizer-lhes mas todos os vossos esforços em nada resultarão porque desta vida só levarão as vossas consciências, e devo lembrar-lhes, ela em nada se parece com o grilo falante!!!
Eu quero fazer parte de uma geração que constrói para o futuro, e para que isto aconteça temos que mudar agora. Eu quero colocar o Espírito Santo no mapa da cultura brasileira, mas para isto, é necessário o empenho de todos. Da nossa parte todo o empenho tem sido feito. Infelizmente não há empenho das instituições governamentais responsáveis pela cultura do Espírito Santo. Não há vontade política em resolver a questão por ser uma questão que aparentemente em nada beneficiará a política do Estado, uma vez que cultura, na visão política a que estamos submetidos, não é valor. Valor é algo que se esconde nas cuecas, lembram-se? Que vergonha! Podiam ter pelo menos higiene estes aí! Mas se não se tem vergonha....terão o quê? Valor é a troca insana e vergonhosa de favores que beira o ridículo. Denúncias expostas todo dia! Valor é aquilo que a ilusão lhes oferece como bem perpétuo.
Meus senhores, sinto dizer-lhes mas todos os vossos esforços em nada resultarão porque desta vida só levarão as vossas consciências, e devo lembrar-lhes, ela em nada se parece com o grilo falante!!!
O meu comentário é o seguinte:
ReplyDeleteLi atentamente os textos dos colegas de tantos anos, Paula e Tonico e fiquei pensando em uma série de coisas. Dentre elas eu destacaria duas: a primeira é que este blog me faz voltar, ainda que virtualmente, ao período de nossas vidas em que sonhamos com algo quase todos os dias. Talvez pelo sentimento lusófono de "saudade" ou pela onda retrô que vivemos, não sei. O fato é que ver ideias que se confrontam e que se abraçam.. dialeticamente, me fizeram mais envolvido com coisas tão sérias que se passam em nosso estado. A outra é que as minhas leituras me fizeram repensar os nossos lugares. Porque descobri que vivemos muito, mas muito localizados em nossas funções. Ou seja, quase não vivemos mais utopias, pois o "utópico" é um "fora-de-lugar", um "não-topos", um deslocamento de que precisamos para sobreviver. Quando o Tonico escapa (no excelente sentido do termo) para outro lugar, ele re-alimenta a utopia. E o capixaba está se reduzindo a um "tópico". Cada tópico se limita a esclarecer uma "função".
Para melhor esclarecer o que entendi deste belo texto Paula, te digo que enquanto o lia me lembrava dos poucos anos em que passei ensinando na universidade lá na França: mesmo agraciado com amigos que guardo para sempre, eu andava pelas ruas de Aix-en-Provence e me dava conta de que era feliz, passava por momentos tristes, sonhava com a minha carreira, alimentava e vomitava os sonhos, tinha saudades do Brasil, vinha para o Brasil e me decepcionava com a saudade que sentia... enfim, eu vivia utopicamente. Voltei e sinto que vivo topicamente.. que doido isso. Por isso a partir de agora me preocupo com "o que será do amanhã?". Aliás, o seu pai é o exemplo perfeito, pois você como filha tem em casa aquele que foi, um deslocado, utópico, com somos todos nós de algum modo, e aqueles que ficaram, por amor e por utopia, para reconstruir o próprio lugar. Nós, ao contrário, só temos por enquanto a opção de ir, pois não estamos conseguindo reconstruir muita coisa ou nada.
Mario Benedetti, escritor e intelectual uruguaio, criou, escreveu e viveu o exílio, o desexílio e seus seguidores até o inxilio. O escritor então me fez pensar que o exílio pode ser criativo (nosso Chico Buarque o prova), o desexilio é possível e o inxilio é quase uma condição. O problema é que em nosso estado não me sinto exilado, não me sinto muita coisa, e por isso não posso dizer que haveria para nós o desexílio. Talvez pior, quando saimos, descobrimos que começamos a viver.
O antropólogo francês Marc Augé desenvolveu a ideia de "não-lugar" (non-lieu). Trocando a sua teoria em termos simples e práticos, diríamos que o mundo contém vários espaços (?) que se caracterizam por ser não-lugares em vez de lugares: certos supermercados, por onde passamos em não convivemos com ninguém, shoppings, onde consumimos até não querer mais e dele saímos com de uma caverna e os aeroportos, sobretudo as suas salas de embarque, que passa a ser lugar nenhum! Por que eu estaria trazendo este conceito para o meu comentário? Termino dizendo que não sei se moro em um supermercado, onde me deparo com pessoas se comprando, se moro em um shopping, onde tudo é mercadoria, ou se nasci e vivo em um sala de embarque, que para mim é lugar nenhum, um verdadeiro não-lugar, esperando o próximo avião para, voando, sair do tópico e me tornar pelo menos um parágrafo. É isso, parabéns Paula pela iniciativa!!
Obrigada Wellington pelo seu comentário. Enquanto lia, pensei que melhor seria viver no exílio e pertencer a algum lugar de fato e de direito que viver em um lugar que lhe oferece a ante-sala do aeroporto. Como você, não me sinto exilada. Não me sinto nada. Me sinto desagregada como se os valores pelos quais luto pertencessem somente a mim. Será que Gonçalves Dias passou por isto depois de escrever a Canção do Exílio? Gostaria de me sentir como ele nos últimos versos...."não permita Deus que eu morra sem que volte para lá..."
ReplyDeleteSerá que a minha terra me permitirá toda esta saudade ou vou, como você, me decepcionar com a minha?